Noite de horror

Postado por wallacecampos em February - 27 - 2010

O que se pode esperar de uma vida como a minha? Era o que eu pensava à medida que sentia a pele desgrudando dos meus ossos, minha boca salivava como se eu fosse um cão com raiva. Fome. Uma fome terrível me fazia pegar a pele que caia do meu corpo e enfiar na boca, era nojento pensar que eu a pegava do chão sujo daquele beco, onde milhões de baratas e ratos já passaram um dia, onde fezes humanas e jornais se fundiam com a paisagem, era estranho estar comendo minha própria pele putrefata. Meus ouvidos já não funcionam mais como antigamente, só noto o pequeno quando ele já está próximo de mim. Tento erguer a cabeça pra encarar a face do jovem. O que vejo primeiro são os pequenos pés. Espremido em um tênis velho e rasgado, tenho que tirar parte do capuz do velho manto da face antes de levantar a cabeça. À medida que subia o olhar fui notando os restos do uniforme que vestiam a pobre criança, quando finalmente olho em sua face, fico do mesmo tamanho que ele sentado como estou, pernas encolhidas minhas costas apoiadas na parede de um dos prédios que formam esse beco, os braços apoiados nos joelhos. A face do fedelho. Já vi muita coisa feia na vida, eu mesmo não estava em bom estado, mas por deus. Seus olhos estavam fundos de tal forma que não pareciam existir, as maçãs do rosto estava com diversas larvas passeando, o maxilar parecia ter se perdido há muito tempo, os cabelos do pobrezinho eram quase inexistentes em uma cabeça ferida e com metade do topo arrancada, provavelmente por um machado. Céus, em outros tempos eu estremeceria. Em outros tempos eu correria dali como o demônio da cruz. Em outros tempos eu ficaria com pena do garoto que estático apenas me observava com aqueles olhos opacos e sem vida. Mas não hoje. Hoje a fome me domina. Não tenho muito trabalho para derrubá-lo, com apenas uma mão seguro o pescoço, que quase se rompe com meu toque, e o prenso contra o chão me ponto ajoelhado sobre o pequeno corpo. Minha sanidade se perdeu a muito, mas posso jurar que ele estava me pedindo ajuda, podia até mesmo ouvir sua voz infantil na minha cabeça, perguntando pelo pai. E quase sinto pena. Quase. Mas essa não é uma noite pra remorso. Esta é uma noite para um pequeno, pútrido e saboroso banquete.

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